æTudo sobre SkateVida Sobre Rodas – Entrevista com Bob Burnquist

Bob Burnquist é um dos quatro protagonistas do filme Vida Sobre Rodas, que estreia no dia 26 de novembro em circuito nacional. Confira entrevista do skatista falando sobre a produção.

Como foi o início da sua carreira? Quais as dificuldades enfrentadas no Brasil e fora do país?
No Brasil, a maior dificuldade era o material e as pistas. Mas independente disso, eu me lembro de ter andado muito de skate, e me divertido bastante com meus amigos. Sempre sonhei em andar de skate pelo resto da vida. Como nasci com dupla nacionalidade e aprendi o inglês desde cedo com o meu pai, eu tive a oportunidade de correr atrás do meu sonho aqui nos EUA, onde estão as marcas fortes e a grande mídia do skate. Mas quando morava no Brasil, fazia o que podia. Essa experiência de constante luta pelo sonho deixou em mim uma personalidade de não desistir nunca.

A pista da Ultra teve uma importância fundamental. Você achava que a Ultra teria toda essa visibilidade na história do Skate do país, ajudando na “popularização” do esporte e até mudando o jeito de praticar skate?
A Ultra mudou o Vertical no Brasil. Foi a primeira rampa de madeira com padrões internacionais, e isso alavancou muito nossa evolução. Era um ponto de encontro por ser uma rampa de alta qualidade. Profissionais e amadores de todas as pistas do Brasil se reuniam na Ultra em eventos e sessões variadas. A Ultra foi onde eu aprendi a andar. Foi lá que se instalou o meu amor pelo Skate. Naquela época, o skate Vertical era o mais praticado. O street ainda estava se desenvolvendo. O skate tem muitos ramos e galhos. A Ultra foi um tronco para o skate Brasileiro junto com o movimento do skate Street pelas ruas de SP, as pistas de cimento como São Bernardo, São Caetano, Prestige e ZN. Todas elas ajudaram a completar a identidade do skatista Brasileiro daquela época. Até hoje sentimos a influência desses pontos positivos do Skate no país. Em todos os ramos temos skatistas de ponta.

O que você achou da idéia de fazer um documentário sobre skate que tem como cenário o Brasil?
ÓTIMA! Quanto mais cavamos e nos aprofundamos na História do skate Brasileiro, melhor. Isso tudo é motivo pra muito orgulho. No meu caso, lembranças muito especiais porque em paralelo é a historia de parte da minha vida, minha infância, minha juventude.

Hoje você é ídolo do segundo esporte mais praticado no Brasil e que nos anos 80 era marginalizado, além de ser referência para essa nova geração de skatistas. Como encara isso? Achava que chegaria tão longe com o skate?
Eu sempre encarei como uma missão. Andar de skate é um dom que Deus me deu, e eu batalhei muito para melhorar e me manter relevante. Sei que tive uma grande influência junto com tantos outros nomes do skate Brasileiro pra inspirar a molecada a dar o “rolê” deles e acreditarem mais em si mesmos. Tudo é possível quando existe determinação. É muito mais difícil abrir portas, mas quando elas estão abertas, as oportunidades aumentam e muitos acreditam que podem. No meu caso, eu lembro ter tido uma explosão de energia e motivação quando o Lincoln Ueda ficou em 4° lugar no Mundial da Alemanha. Aquilo foi algo que não esperávamos e eu estava dentro de um Taxi e lembro que falei pro taxista que um skatista brasileiro, amigo meu, conseguiu essa colocação num evento mundial de skate na Alemanha. Deu-me um orgulho e me encheu de esperança para o futuro. Isso foi em 89! E seis anos depois, eu consegui ganhar o evento do Slam City Jam no Canadá. Se não fosse o Ueda, pode ser que eu não tivesse tido essa vontade toda. Eu nunca imaginei que chegaria aonde cheguei com meu skate. Eu só sabia de uma coisa: que ia andar de skate pelo resto da minha vida.

Quem eram seus ídolos?
Meus ídolos eram Léo Kakinho, Lincoln Ueda, o próprio Cristiano Mateus e quando tive acesso aos vídeos Americanos, o Danny Way, Colin Mckay, Tony
Hawk, entre outros.

Você acha que de alguma forma ajudou a mudar o jeito de se andar de skate no mundo? Por quê?
Eu faço a minha parte e amo andar de skate. Sempre mantive a mente aberta e desde moleque sou viciado em aprender manobras novas. Por isso gosto tanto de trabalhar com vídeo. Eu tentei fazer de tudo um pouco. E gosto de andar de skate onde quer que seja. Gosto muito de improvisar. Uma experiência traz novas idéias e assim por diante. Tinha época que eu andava muito mais de street do que Vertical. E isso me deu base pra evoluir e mesclar o street com o Vert. O skate é uma coisa só. Não existe limitação. E eu sempre tentei ser o mais “overall” possível.

Como está a sua carreira atualmente? E os planos para o futuro?
Estou me sentindo mais forte do que nunca, aprendendo manobras novas e correndo atrás de criações e possibilidades diferentes. Tenho uma quebra de recorde planejada pra esse ano e espero que até o lançamento do filme já esteja concretizada. Vou continuar competindo e evoluindo meu skate sempre. Só preciso de um descanso aqui e ali. De preferência em algum lugar especial com minha esposa Verônica Burnquist e nossas filhas. Pra recarregar as energias e continuar fazendo o que eu sei fazer.

Como foram as filmagens para o documentário na Califórnia na pista da sua casa e em São Francisco?
Foi bem corrido, mas muito produtivo. Eu já trabalhei em muitas produções e o Daniel Baccaro é um amigo de infância. Então a comunicação e as idéias foram fluindo sem muitos problemas. Conversávamos e planejávamos a seqüência do que fazer e por que. Tentando manter a relevância e contar a historia de uma maneira coerente. Em casa foi fácil, já tenho uma idéia por já ter filmado bastante. Em São Francisco foi diferente. Lembro que estava muito frio. Como eu morei por lá alguns anos, eu já tinha uma idéia de alguns locais que seriam bem legais para filmar e deixamos fluir também. A foto do pôster do filme é um pico clássico de São Francisco.


Como foi ganhar o seu primeiro título mundial?
Titulo mundial mesmo foi em 2000 e foi muito gratificante. Para isso, tive que vencer o Ranking, que é muito mais difícil do que um campeonato individual. É preciso constância. Naquela época, todo mundo corria e não foi fácil. Fiquei feliz e orgulhoso porque era um feito inédito para o Brasil. E ainda dividi essa alegria com o Carlos de Andrade, que ganhou o mundial de Street. Então, o Brasil conquistou dois títulos inéditos no mesmo ano! Dali em diante foi uma seqüência de conquistas atrás da outra para o Skate Brasileiro.

No Longa tem várias cenas de você engessado, de muleta e até algumas pessoas falando para você desistir de andar de skate. O que te fez continuar?
Podiam falar a vontade, quem sentia a dor era eu (risos). E para mim tudo valia muita a pena. Eu sempre fui muito dedicado e não ouvia um não como resposta. Aliás, bastava falarem para eu não fazer algo, que dava mais vontade ainda de provar a pessoas o contrario. Eu não calculava muito o risco e não sabia maneirar e ir aos poucos. Era oito ou oitenta. Eu achava que o jogo era não cair do skate.

Como foi receber o “Laureus World Sports Awards” considerado o “Oscar” dos esportes das mãos de Michael Jordan?
Essa foi uma experiência surreal. Eu nunca imaginei que o skate me levaria a Mônaco para receber um prêmio das mãos do Michael Jordan! Foi uma simbologia muito legal. Um ícone dos esportes convencionais entregando o prêmio para um skatista. Confesso que me senti um peixe fora d’água no meio daquelas celebridades todas, mas aproveitei ao máximo. Foi o momento de deixar o meu recado e representar o skate Brasileiro.

(fonte:ESPN)